Venezuela: é preciso enxergar as pessoas

Menino vestindo um boné com as cores da bandeira da Venezuela

Em Pacaraima, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, a consequência do chavismo não precisa ser explicada. Ela se impõe. Está nos corpos cansados, nas mochilas improvisadas, nos silêncios longos de quem atravessou muitos e muitos quilômetros em busca de liberdade. Escrevo isso como um relato pessoal, porque estive lá e saí com a convicção de que nenhum debate internacional sobre a Venezuela pode continuar ignorando aquilo que mais importa, que são as pessoas.

A Venezuela que vi de perto não é a dos discursos inflamados nem a das disputas entre governos. É a de um povo empurrado para fora de casa por um regime que transformou o cotidiano em sobrevivência. É a partir dessa realidade concreta que a captura do ditador Nicolás Maduro pelos Estados Unidos precisa ser compreendida. O mundo voltou a olhar para a Venezuela, multiplicaram-se análises, condenações e alinhamentos. Mas, se esse olhar continuar restrito às lógicas de poder, seguirá falhando em responder ao essencial. A tragédia venezuelana é humana.

O chavismo produziu mais do que um impasse institucional. Produziu escassez, medo e ruptura. Em um país rico em recursos naturais, milhões de pessoas foram levadas a deixar tudo para trás. Não foi simplesmente por falta de potencial econômico, mas pelo esvaziamento das liberdades, pela corrosão das instituições e pela concentração autoritária do poder. Quando a democracia deixa de funcionar, o preço é pago em vidas interrompidas.

O Brasil se tornou destino de quem não encontrou alternativa. Hoje, mais de meio milhão de venezuelanos vivem legalmente no país, tentando reconstruir trajetórias marcadas por perdas profundas. No Rio Grande do Sul, políticas públicas de assistência social, segurança alimentar e inclusão produtiva têm sido fundamentais para oferecer acolhimento e algum horizonte a essas famílias.

Essa experiência concreta exige responsabilidade no debate internacional. Condenar o chavismo é necessário porque ele gerou sofrimento real, prolongado e mensurável. Mas nenhuma solução será justa se continuar tratando a Venezuela como palco de disputas simbólicas entre potências ou como objeto de narrativas convenientes. Os movimentos que ignoram o impacto humano apenas prolongam a condição de vítima imposta ao povo venezuelano.

A Venezuela precisa de uma saída democrática que devolva às pessoas o direito de permanecer em seu país, de trabalhar, estudar e viver sem medo. Democracia, nesse contexto, não é um valor abstrato nem um slogan diplomático. Enquanto esse caminho não se concretiza, acolher quem foi forçado a partir é um dever ético e político. O povo venezuelano já foi vítima demais de projetos autoritários e de disputas entre poderosos.

O mundo pode continuar olhando para a Venezuela em busca de respostas estratégicas. O que não pode é deixar de enxergar quem paga o preço dessas disputas. Foi isso que vi na fronteira. É isso que não pode ser esquecido quando a Venezuela volta a virar manchete.

Artigo de Beto Fantinel publicado no jornal Diário de Santa Maria no dia 20 de janeiro de 2026.

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